Experimentei , em missão parlamentar, a tortura que é ter à disposição um pantagruélico programa com um turbilhão de eventos –oficiais, semi-oficiais, privados, paralelos, etc - sobre uma galáxia de temas digitais. Por mais drásticas que sejam as escolhas, não é possível fugir à sensação de estar a perder o melhor…
Nos gélidos pavilhões da PALEXPO que albergaram a Cimeira Mundial sobre a Sociedade de Informação havia uma sala principal onde discursaram chefes de Estado e membros dos governos de 176 países e um centro onde tiveram lugar mesas-redondas oficiais.
Porém, ao lado, à volta, em vários pisos, dezenas de salas albergaram dezenas de debates ao longo dos três dias da Cimeira. Pude assim assistir com fome e proveito a painéis sobre a democracia electrónica, o papel dos media na sociedade de informação, o uso da Net para o combate à censura, e a protecção de refugiados , os projectos da UNESCO para preservação do património cultural por meios digitais, o papel dos parlamentos no tocante ao uso e à regulação da Internet…
No piso inferior, uma feira, com abundante número de expositores, chamava a atenção para os programas digitais de vários Estados (Portugal ausente), promovia projectos privados, exibia maquinetas do futuro, desde os novíssimos telemóveis de terceira geração aos robots electrónicos… Lá andámos, 4 deputados, a fazer de Alice no país das maravilhas, recolhendo quilos de documentos (incluindo o relatório da União Internacional das Telecomunicações que publica o tal Índice de Acesso Digital onde figuramos no último lugar da EU, bem acima, contudo, dos infoesfaimados).
Quando a Cimeira abriu, na quarta feira à tarde, já se sabia o resultado das negociações diplomáticas sobre a Declaração de Princípios e o Plano de Acção que vieram a obter aprovação dois dias depois, o que tornou muitos discursos oficiais em peças de proselitismo da obra feita a nível nacional, sem qualquer debate real. Assistir ao desfile dos discursos gerava, por isso, uma sensação estranha, agravada pelo facto de às anunciadas ausências dos representantes máximos dos países do Norte, ter vindo a somar-se uma chuva de cancelamentos que acabou por dar destaque inusitado à ofensiva diplomática francesa, com o Primeiro-Ministro Rafarin à frente.
Pascal Couchepin, o Presidente do país anfitrião, disse, com bastante felicidade, que em Genebra ficou aprovada uma espécie de Constituição da Sociedade de Informação. Trata-se, de facto, de um texto fundador, bem concebido, correctíssimo na identificação dos desafios que a revolução digital coloca à Humanidade, avançado nas soluções que preconiza como boas respostas, fiel aos bons princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos (que acabaram por não ser postos debaixo do tapete).
A Cimeira não fez contudo o milagre impossível de instaurar a justiça e a equidade digitais, num mundo tão dividido e desigual como o actual.
”Ambição digital, sem cheta”, titulava cruelmente um jornal. É exagero, uma vez que se enfatizou a necessidade de canalizar para fins de sociedade de informação os esquemas de financiamento já existentes, que anos a fio desprezaram esse objectivo (com o argumento de que gente esfaimada e cheia de SIDA não precisava de computadores!).
Diplomaticamente, foram empurradas para o secretário-geral Kofi Anan as diligências tendentes a apurar, até à 2ª fase da Cimeira, em Tunis, se a avançada “Agenda da Solidariedade Digital” vai ter à disposição um Fundo próprio e se haverá reforma da ICANN, esse bicho estranho que gere a Net. Aplicar a nova Constituição digital, eis a nova missão impossível!